Doadores gays passam a ser aceitos no Brasil


Doar sangue deixou de ser um ato exclusivo para grupos de determinadas orientações sexuais. O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou no dia 8 de maio deste ano a restrição que proibia homens homossexuais e pessoas trans de doarem sangue. 

Até então, alguns LGBTs eram vistos como parte do grupo de risco, reflexo do preconceito causado pela epidemia de Aids e HIV nas décadas de 1980 e 1990. O tema era debatido há anos e o julgamento foi iniciado em 2017, mas interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Agora, as regras da Anvisa e do Ministério da Saúde, que vetavam o ato, foram consideradas discriminatórias pelo Supremo e, portanto, inconstitucionais.  É o que explica o advogado Eduardo Andery, especialista em direito médico. 

A decisão ocorre em meio a pandemia do novo coronavírus, que levou hemocentros de todo o Brasil a baixos níveis de doação. Outros países também alteraram as regras de doação diante do aumento de casos de covid-19, na intenção de aumentar o estoque de sangue. É o caso da Dinamarca, Austrália, Irlanda do Norte e Estados Unidos.


1,5 milhão de litros

Especialistas estimam que a decisão do STF pode elevar o abastecimento dos bancos de sangue, que devem atingir 1,5 milhão de litros de sangue por mês. Até a medida ser tomada, a média de abastecimento era de 40% da capacidade. 

O que passa a ser considerado agora para doações de sangue no país é o comportamento do doador, e não mais a orientação sexual. É avaliado o histórico sexual do paciente nos últimos 12 meses: se teve mais de um parceiro, o perfil desse parceiro, o uso ou não de preservativos, etc. Para o médico Vagner Castro, diretor do Hemocentro da Unicamp, a restrição causava frustração aos doadores LGBTs. 

O jornalista Iago Lima, de 24 anos, é homossexual e já tentou doar sangue. Ele conta que chegou a procurar os centros de coleta, mas não conseguiu doar por ser gay. 

Ele concorda que a triagem baseada no comportamento do doador seja mais adequada. 

Quando durante a seleção eram feitas as perguntas sobre a sexualidade do doador, por vezes o resultado era constrangimento para LGBTs. A cantora Valéria Barcellos, mulher trans, é paciente quimioterápica e já precisou de transfusão de sangue. Ela gostaria de ser doadora, mas confessa que se sentiria insegura diante da possibilidade de passar uma saia justa. 


Heteros com HIV

Um estudo realizado pelo sociólogo Júlio Jacobo em 2012, tomando como base os dados do Ministério da Saúde, apontou que heterossexuais adultos apresentaram a maior parcela de novas notificações de infecção pelo HIV. 

Cerca de 67,5% dos casos informados pela rede de saúde no ano da pesquisa pertenciam ao grupo de heterossexuais, e a maioria formada por mulheres, com 58,2%. Também foi identificado que a maior incidência de contaminação figurava na faixa etária dos 30 a 49 anos, incluindo héteros e LGBTs. 

A mudança no processo de doação de sangue também é vista com bons olhos por médicos infectologistas, como o Dr. Luiz Alberto Costa Barra, que atua em um centro especializado de Aids e outras DSTs.

O biólogo Thiago Adalton, de 23 anos, é heterossexual e doa sangue a cada 180 dias, religiosamente. Ele acredita que a medida é positiva, e que é dever do doador ser sincero sobre seu comportamento na hora da entrevista.